“Quando estou feliz meus olhos vêem a árvore e descansam nela. Não penso outras coisas. Eu e a árvore somos um. Quando estou doente meus olhos vêem a árvore, mas não descansam nela. Penso (…)” Rubem Alves, em O amor que acende a lua.

Invariavelmente, quando penso em amor, me vêm à mente Rubem Alves, cujas crônicas transbordavam amor…. Eu quase que posso escutá-lo, com sua voz mansa, quando leio suas obras. Isto é muito bom… aquece a alma, alegra o coração, mas também leva a muitas e copiosas lágrimas.

Amar é um ato de profunda coragem! Só que, ama sabe o que sente, só quem ama experimenta uma conexão profunda com quem se ama, que é inimaginável não estar por perto, junto, não ver e ouvir todo dia… por isso o amor é um ato de coragem, afinal, não há garantia alguma de estar perto e junto sempre!!!

De novo vem ele, sábio, belo e poético traduzindo em poesia a efemeridade da vida: “Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar.” Rubem Alves

E eles voam… se vão. Não antes, nem depois, mas no tempo certo, no tempo determinado para alçarem vôo. O problema é que alçam vôo e alguém permanece em chão firme, saudoso, sofrido, choroso.

Permanecem eternos, apesar do tempo que permaneceram em terra… como o Coelho sabido de Alice no País das Maravilhas, pontua com muita propriedade:

“Alice: Quanto tempo dura o eterno?

Coelho: Às vezes apenas um segundo. ”

E assim descobrimos que não é o tempo, que não é a quantidade, que nada disso determina a intensidade do que sentimos e das conexões que fazemos.

Quando, por alguma razão, somos surpreendidos pelo vôo do amado, da amada, sofremos. Uma dor que de tão profunda e doída toma conta do corpo todo e não cabendo mais nele, transborda, sob forma de lágrimas para fora dele.

E que bom que choramos, que bom que deixamos esse amor, essa dor, essa mistura transbordar e sair. Já dizia William Shakespeare “Chorar é diminuir a profundidade da dor. ”.

Chorar faz bem, alivia o peito, diminui a dor latejante, mas não diminui a distância, nem a saudade, nem a tristeza, que são teimosos e voltarão muitas vezes para nos lembrar que chorar é preciso e que amar é sim um ato de coragem, mas uma coragem deliciosa, uma coragem que alegra a alma, que traz cor à vida, que preenche os dias!

Essa pequena crônica escrevo para uma linda mocinha, que teve de dizer adeus, muito antes de seus planos, a uma grande e amada amiga: sua gata! Muitos foram os momentos de amor, de alegria, de troca, intensa foi a vida com ela, que partiu e deixou um vazio, preenchido por muitas lágrimas.

Encerro, com ele, claro, um mestre amado, Rubem Alves, em um dos prefácios mais lindos e verdadeiros que já li na vida, quase que valeu o livro todo (não fosse o livro tão belo também): “(…) Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade. Tudo se enche com a presença de uma ausência. Esta história, eu não a inventei. Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida…” (A menina e o pássaro encantado)

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