Precisamos cuidar de nossa saúde mental

“Na vida, não há certo; não há errado. Há o possível.
O desenvolvimento pessoal amplia o possível.” Hélio José Guilhardi

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Inicio minha coluna desta semana citando um mestre maravilhoso, com quem tive a honra de aprender muito durante a graduação, nos grupos de estudos e em congressos. Hélio disse esta frase em 2009, mas ela segue mais atual e certeira que nunca! Profissionais geniais como ele têm a ‘facilidade’ de nos trazer reflexões atemporais.

Somos erroneamente chamados de “a geração mimimi”, escutamos, não raras vezes frases como: “Na minha época éramos chamados de Quatrozóio, de Dumbo, de Baleia Orca, de Olívia Palito e isso não nos causava nenhum mal.”. Vamos lá: pare por um minutinho e feche seus olhos e volte lá atrás, quando você tinha 10, 11, 12 anos de idade. Pronto! Agora tente lembrar qual era a sensação de ter uma parte sua (talvez aquela que mais lhe causasse vergonha) exposta em meio a um grupo de amigos, todos rindo de você e você ali, pequeno e minúsculo, envergonhado. Talvez você tentasse dar risada, ‘desbaratinar’, fingir que estava tudo bem para disfarçar a dor e a tristeza de ter virado piada e estar sendo apontado, enquanto os demais riam de você. Hummm, será que a sensação era boa mesmo? Será que foi legal, de verdade?

Outras vezes escutamos: “Eu apanhei, hein! Meu pai batia de cinta, com vontade! Eu e meus irmãos ficávamos sem andar direito. Foi ótimo! Formou um cidadão de bem.”, volte lá, te convido: volte aos seus 8 ou 9 anos e lembre-se de uma figura importante como um pai, grande e bem maior que você, alguém amado por você, lhe batendo vigorosamente e lhe causando dor, muita dor e medo, muito medo. Podemos dizer mesmo que foi bom? Que você aprendeu?

Que bom que evoluímos um pouco e sabemos que surras ensinam sobre como ser violento e agressivo, sobre como ter medo e pavor, sobre como mentir melhor e esconder com mais eficácia o malfeito, o erro, a ‘pisada na bola’, para não ser descoberto e não ser corrigido com tanta ‘doçura e amor’ por aquelas cintadas didáticas.

Os tempos foram mudando, os estudos sobre o comportamento e sobre as emoções humanas foram evoluindo e fomos descobrindo que apesar das boas intenções, as surras nos machucavam mais que ensinavam. Os castigos ameaçadores e cruéis causavam mais pânico e revolta do que mudança de comportamento. As ameaças causavam mais pânico e insegurança do que reflexões. Que bom que descobrimos tudo isso! Que pena que muitos de nós ainda insistem em machucar com o pretexto de ensinar. Quem bate, bate para descontar a raiva, para extravasar o ódio que teve diante daquele erro, daquela atitude considerada absurda, mas não bate para ensinar…

Quem dera se fosse “mimimi” sofrer com apelidos, sarro, empurrões e ofensas de amigos na escola, no clube, na aula de inglês, nas festinhas. Quem dera isso não causasse sofrimento e fosse somente “lorota para chamar atenção”, mas não é. A dor da exposição, a dor da ofensa, a dor de ser alvo de piadas, de ser ofendido como se fosse uma brincadeira é imensa para uma criança ou adolescente enfrentar e por mais que ele diga: “Está tudo bem, eu nem ligo, eu até acho engraçado.”, tenha a certeza: não está tudo bem, ele (a) liga sim e não acha engraçado. A vontade pode ser de chorar, de sumir, de desaparecer dali mas pode estar disfarçando com uma risada, com um sorriso, com um “tô nem aí”.

O sempre fantástico Rubem Alves pontua que “o ódio segura, para que o outro não seja feliz. O ódio gruda mais que amor. Porque o amor deixa o outro voar…” e é fato! O ódio faz com que adolescentes grudem naqueles que odeiam com intensidade incrível e permaneçam ali, machucando e causando dor, para manter seus alvos por perto, sempre ao alcance, sempre uma válvula de escape para um momento que precisar ‘extravasar’ ou ‘mostrar sua força’. O ódio machuca, marca, massacra. O ódio causa dor, dor física, dor emocional, causa temor, causa revolta, causa ansiedade, sentimento de menos valia e tristeza profunda no outro!

Áh, dizem outras, “na minha época também existiam meninas que se uniam para falar mal e isolar uma outra, por qualquer que fosse a razão e ninguém morreu.”. Será? Será que essa menina isolada não ‘morria aos poucos em seu interior’ a cada vez que tentava se aproximar, ser aceita, que sorria e recebia rispidez como retorno? Será que ela se tornou uma adulta carinhosa, afetuosa, disposta a ajudar? Ou será que é fria, individualista ou será que é triste, depressiva, não acredita nas relações? Só pense um pouco. Se coloque no lugar dela por uns minutos. Como deve ser ficar isolada em um canto, não conseguindo fazer amizade, sem entender o porquê? Será que em algum momento ela se sente fracassada, se sente menos que as demais, se sente triste? Claro que sim, né? Pode ser que neste ‘isolar a outra’ resida uma inveja por não ser livre como ela, por não ser boa como ela, por não ser carismática como ela, mas como diz, novamente o brilhante Hélio Guilhardi (2008): “A inveja da liberdade germina opressores.”, invejosas, isolam, colocam ‘de lado’, são cruéis e machucam e ferem e calam fundo e mostram sua pequenez.

Não, não somos a geração “mimimi”, somos a geração fruto de tudo isso, que não lidou e não trabalhou estes aspectos. Somos a geração que ainda não consegue lidar com frustração, que ainda não lida com diferenças, que ainda resolve agressivamente e na base da ameaça as desavenças. Somos a geração que funcionou bem à base da ameaça dita ou velada, que sabe lidar com o medo e com a vergonha e não com o amor e com a acolhida.

Mudemos, vamos evoluir! Se for para brincar, que todos se divirtam de verdade! Que ninguém fique magoado e exposto. Se for para ensinar, que usemos o diálogo, a conversa, que tenhamos argumentos, vamos lembrar que o que nos difere dos demais animais é o fato de sermos racionais, isto é, de raciocinarmos e usarmos nossa capacidade de pensar (nosso cognitivo) a nosso favor, portanto, se quisermos ensinar, com certeza, o diálogo, a reflexão, a conversa, a modificação de pensamentos e de comportamentos disfuncionais é muito eficaz. Se temos alguém que admiramos, que ‘invejamos’, que tal aprendermos com ele (a)? Que tal trocarmos informações, ensinarmos e aprendermos, no lugar de isolarmos e nos tornarmos monstruosos?

Não sejamos estas pessoas que deixam nos demais as piores e mais doloridas marcas. Sejamos incentivadores de pessoas, sejamos propagadores de amor, sejamos exercício de empatia (capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela), sejamos aquele que estende a mão, quando o outro precisa!

Precisamos cuidar de nosso emocional para desenvolvermos todas as habilidades citadas acima. Precisamos sim, nos conhecer bem, afinal “o auto-conhecimento tem um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa que se tornou consciente de si mesma, por meio de perguntas que lhe foram feitas, está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento.” (B.F. Skinner)
Precisamos lidar com nossas dores, nossos traumas, nossos medos, nossos receios, nossas angústias, afinal “quanto mais perturbadora a lembrança, mais persistente a sua presença” (Água para elefantes)

Vamos deixar de sofrer e de fazer sofrer por não nos conhecermos, por não solucionarmos nossos conflitos internos, nossos traumas, nossos medos. Vamos investir em nosso emocional!
Iniciei e encerro esta coluna com uma frase de Hélio Guilhardi: “No processo terapêutico não importa mudar a vida das pessoas rapidamente, mas fazê-lo bem e para o bem.” (11/04/2008)

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